A ÁLXEBRA DO MEDO

Diogo Tabuada

Category: Gromos de poesía (page 1 of 2)

O primeiro astronauta – Mía Couto

O primeiro astronauta

O primeiro astronauta
devia ter sido
Silvestre José Nhamposse

Só ele
teria sacudido os pés
à entrada da Lua

Só ele
teria pedido
com suave delicadeza
– dá licença?

 

Companheiros – Mía Couto

quero escrever-me de homens
quero calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue
depois do último caminho

e quando ficar sem mim
nao terei escrito
senao por vós
irmaos de um sonho
por vós
que nao sereis derrotados

deixo-vos
a paciencia dos rios
a idade dos livros que nao se desfolham
mas nao lego
mapa nem bússola
sobre meus pés
e doeu-me às vezes vivier
hei de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho

basta-me saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

Poema mestiço – Mía Couto

 

escrevo mediterraneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coraçao do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer

 

Ansia – Mía Couto

Nao me deixem tranquilo
nao me guardem sossego
eu quero a ansia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas sao-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que nao o mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo

O vivenciado – Ondjaki

 

Sao as linhas que os calos da mao e do coraçao escolheram
para edificar os seus muros.
o vivenciado é a alma de uma madrugada
– perto do deserto da noite -.
é o Sushi com cólera na música da adriana.
é o momento interno onde se roçou a decisao do suicídio.
sao as ravinas do miradouro da lua em luanda.
é o brilho triste da fome no rosto, na ferida, da criança.

o vivenciado sao as cores do céu quando nao conseguimos
explica-las e elas nos esgotam o pensamento.

isto de vicenciar requer uma fatia de tempo acumulado

Construçao – Ondjaki

Construçao da casa – e do interior da casa –
construçao de uma fogueira -e do fogo, e da chama, e das cinzas-
construçao de uma pessoa – do embriao aos livros –
construçao do amor
construçao da sensibilidade – desde os poros até à música –
construçao de uma ideia – passando pelo que o outro disse –
construçao do poema – e do sentir do poema –

– Ha qualquer coisa de “des” na palavra construçao –

desconstruçao do preconceito
descontruçao da miséria
desconstruçao do medo
desconstruçao da rigidez
desconstruçao do inchaçao do ego
desconstruçao simples – como exercicio –
desconstruçao do poema – para um renascer dele –

construçao é uma palavra
que causa suor
ao ser pronunciada

penso que esse seja um suor bonito.

 

Pescador de Águas Limpas – Ondjaki.

 

O juju gosta de ir à pesca.
de contar estórias também.
tem um sorriso doce
disfarçado de barba branca.
tem nos olhos
um reservatorio de brilho
qie também usa ternura.
eu gosto de chatear o juju desta forma:
“pai, conta-me outra vez uma coisa que já me contaste.
conta-me aquela estória do pescador”
os dedos do juju sao muito amigados com o tabaco.
ele fuma o tempo ás vezes.
“conheces aquela do gajo que tava sentado a pescar?”
faço fingimento que nao.
“tava sentado a pescar.alguem perguntou: voçe está a pescar o que?, e ele respondeu: xuxuíla!. o outro
perguntou; xuxuíla?!, que peixe é esse. o gajo respondeu:
nao sei, ainda nao pesquei nenhum

o juju gosta muito de ir à pesca.
eu gosto de ir à pesca com ele.
ele é meio pescador
meio pessoa doce.

 

Em Carta para Isabel- Ondjaki

 

Procuro gambozinos de noite
sem vontade
de os encontrar.
no caminho tenho encontrado
estrelas
teias imperfeitas de uma aranha preguiçosa
pessoas-nenhumas.
de vez en quando
entre duas sombras de nuvem,
presinto-me

sentado.

quero falar com ese de mim que escreve.
apaziguar-me através dele.

vezes demais, ele nao está.

Ondjaki

Confidencia

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidencia para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mao infatigável
procura o interior e o avesso
da apariencia
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobresalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

 

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grao de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou Pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço

Mía Couto.

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